Covid 19: informações para antecipar soluções e evitar pânico – parte II

por Leandro Barreto – 15.04.20 / Portos e Navios

O que havia começado como um choque de oferta na China, após o “lockdown” decretado no início de fevereiro naquele país — parando não apenas as escolas, escritórios e o comércio, mas também cidades, províncias, fábricas, construção civil, caminhoneiros, portos etc. —, acabou se transformando rapidamente numa crise internacional de demanda, à medida que governos de todo o mundo vêm intensificando ações de distanciamento social (em diferentes graus), numa tentativa de conter a propagação do vírus.

Embora ainda seja bastante prematuro tentar dimensionar essa crise e realizar quaisquer previsões responsáveis quanto a sua profundidade ou duração, o transporte marítimo internacional de contêineres já vem antecipando alguns sinais para o mundo:

• Mais de 250 viagens programadas já foram canceladas nesse segundo trimestre, contra cerca de 77 viagens canceladas no primeiro trimestre, em virtude do “lockdown” na China. Entre as centenas de cancelamentos de agora estão todas as que fariam os 12 meganavios de 18.000 a 23.000 TEUs do serviço AE2/Swan que operam no consórcio 2M formado pela Maersk e MSC na rota Ásia-Europa;
• A capacidade dos navios inativos deve ultrapassar pela primeira vez a marca de 3 milhões de TEUs, contra 2,46 milhões de TEUs por conta do “lockdown” na China, o que representa 13% da capacidade mundial (similar à taxa verificada na crise de 2009);
• Diferentemente da queda de capacidade observada em fevereiro, que durou de duas a três semanas e se concentrou nas rotas com a China, agora os cancelamentos podem durar de dois a três meses e atingir várias rotas em todo o mundo;
• Em algumas das rotas mais afetadas o corte de capacidade pode chegar a 30%, segundo estimativa divulgada pelo Alphaliner Weekly Report 14 (Índia, Filipinas, África do Sul e Bangladesh já estão sérios problemas nos portos);

Se de um lado esses indicadores do transporte marítimo podem ajudar outros setores a ter uma noção do tamanho dessa crise, por outro lado os próprios armadores vivem um momento delicado.

Após quase uma década de resultados insatisfatórios, o que deflagrou um amplo processo de consolidação no setor, as margens operacionais dos armadores de contêineres vinham melhorando em 2019, com apenas dois dos dez principais a publicar seus balanços ainda reportando resultados operacionais negativos. Contudo, de acordo com o Alphaliner: “As preocupações com a liquidez pesarão bastante para os armadores em 2020, já que a recessão impulsionada pelo Covid-19 deve atingir os fluxos de caixa e os resultados financeiros das empresas. Algumas transportadoras de contêineres estão especialmente vulneráveis, pois seus balanços estão enfraquecidos por perdas persistentes”.

Para o CEO da Sea Intelligence, Alan Murphy: “É claro que o objetivo principal das reduções de capacidade deve ser visto como um esforço para evitar uma queda catastrófica nos níveis de frete. A economia de custos também é importante, pois eles também são medidos em bilhões, mas pálidos quando comparados com o impacto que a queda dos fretes pode gerar”.

Já a Drewry defendeu em seu último “Container Forecaster Report” que as autoridades precisam permitir que as empresas ajam de forma coordenada nesse momento, visando evitar um colapso no setor: “Sem uma resposta coordenada, os armadores nem sempre acertarão o momento certo de alocar uma embarcação. A comunicação e o entendimento serão essenciais para manter a cadeia de suprimentos o mais suave possível”.

Para os embarcadores, a Drewry alerta que: “Os proprietários de carga devem esperar interrupções significativas de serviços este ano com mais “blank sailings” e muito provavelmente várias suspensões de serviço. Os exportadores devem considerar adicionar alguns “armadores de backup” à sua lista de fornecedores, se seus provedores de habituais reduzirem a capacidade ou interromperem serviços“.

Efeitos para o Brasil

Evidente que o Brasil está inserido nesse contexto internacional e que esse “tsunami” não chegará por aqui em forma de “marolinha”, contudo, após cerca de um mês desde a intensificação da contágio do Covid-19 na Europa e da ampliação da adoção de medidas de distanciamento social mundo a fora, há sim, ao menos por hora, notícias a serem comemoradas por aqui, tais como:

• Não registramos nenhuma viagem cancelada nas rotas com Europa, Mediterrâneo, EUA e Golfo/Caribe para as próximas semanas e os níveis de utilização dos navios não demonstraram grandes variações até a semana 14, seja na Expo ou na Impo (inclusive com níveis superiores ao mesmo período do ano passado);
• Na Ásia, embora as utilizações dos navios que partiram de Cingapura até a semana 14 ainda demonstrassem níveis satisfatórios (acima de 80%), os fretes de Importação estão em queda livre e, com isso, registramos três viagens canceladas para maio (ainda bem abaixo dos nove cancelamentos em virtude do “lockdown” na China);
• Fechamos março com recordes nas exportações de soja e carnes (apesar da falta de equipamentos também causada pelos nove cancelamentos de fevereiro). Os portos de Santos, Paranaguá e São Francisco do Sul igualmente anunciaram marcas históricas de movimentação portuária no último mês (que já teve praticamente uma quinzena de aulas, comércio e até algumas indústrias fechadas em parte do Brasil);

O cenário está bastante dinâmico e certamente pode mudar de um dia para o outro, mas é fato que nesse momento a pauta exportadora brasileira mais focada em alimentos, produtos básicos e matérias primas, além da desvalorização do câmbio, tem sido um grande ativo do país. A própria ministra da Agricultura vem reportando que: “A crise do novo coronavírus aumentou a preocupação de alguns países com a segurança alimentar e contribuiu para acelerar processos de ampliação ou abertura de mercados ao Brasil”.

Ou seja, a cada dia em meio a esse turbilhão fica mais evidente que toda crise também traz consigo oportunidades, basta ter muito calma e disciplina para levantar e interpretar com atenção redobrada os números e as variáveis que influenciam em cada segmento, mercado ou rota. Provavelmente a “receita” vai variar caso a caso.

Na Solve as principais questões que estamos buscando responder todos os dias são:

• Como estão se comportando fretes e utilizações em cada rota (isso determinará o grau em que veremos reduções de capacidade nas próximas semanas)?;
• Quando o vírus será contido na Europa, EUA e Brasil? As medidas de estímulo econômico já anunciadas serão suficientes para evitar cicatrizes permanentes da economia global (isso determinará a forma da retomada pós crise: “V”, “W” ou “U”)?

O desafio agora é trazer racionalidade para as decisões, visando dosar direito o tamanho do freio para ter fôlego para acelerar quando isso tudo passar, e vai passar!

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